domingo, 30 de julho de 2017

TEXTO PARA REFLEXÃO




"Quando a exigência esportiva dos pais prejudica o resultado dos filhos"


O pilar mais forte da estrutura de desenvolvimento de uma criança em qualquer esporte não é o professor ou o método, mas sim a influência que esta criança recebe em casa, dos pais e da família de um modo geral. Por melhor que seja o professor, é quase impossível manter motivada uma criança que entra numa atmosfera negativa assim que sai de um treino ou de uma competição.

Um dos problemas mais comuns que tenho observado, é o de pais que muitas vezes são muito ansiosos pelos resultados esportivos de seus filhos. Mais até do que os próprios filhos. Não conseguem segurar a frustração de verem-nos derrotados em uma competição, ou estão sempre de olho no desempenho dos treinos, muitas vezes atuando de fora do tatame como um “segundo técnico”. Este tipo de pai está sempre acompanhando a criança e geralmente até aprende todas as regras do esporte. Não que isso seja ruim, isso é ótimo, mas com limites. E o limite é justamente quando isso se torna uma pressão adicional sobre o aluno.

Nem sempre se trata de um sonho frustrado do pai. Às vezes é apenas a vontade de ver o filho bem-sucedido no esporte, um campeão… talvez um futuro atleta olímpico. 

Quem não deseja o melhor para os filhos não é mesmo? Acontece que a pior forma de conseguir um resultado desses é com pressão desnecessária. O pior mesmo é que as vezes esta pressão começa muito cedo.

Hoje em dia temos competições de judô da categoria mirim e infantil, onde competem crianças de 5 a 10 anos. Várias vezes em que arbitrei nestas competições fiquei muito triste ao ver pais na beirada do tatame esbravejando, desrespeitando os árbitros e brigando com filhos que perderam. Isso é no mínimo, ridículo. Uma péssima influência e uma pressão psicológica insuportável para uma criança dessa idade. Se isso gera algum resultado, são os piores possíveis. Aumento da ansiedade nas próximas competições, desmotivação no treino e até perda de interesse pelo esporte são os reflexos mais comuns. Mas, em casos mais específicos, por exemplo, para crianças que competem regularmente no alto nível, a exigência de rendimento dos pais pode resultar em quadros depressivos.

Como professores, é importante sabermos o momento de intervir quando pais e familiares apresentam este comportamento com os filhos. Precisamos saber o momento pois nem sempre a primeira vez que um pai pressiona o filho é um sinal de que ele sempre impõe uma exigência de resultado. Percebo que muitos destes pais não compreendem o real significado do judô e o quanto ele vai além da competição para beneficiar a criança de um modo geral. Um dia desses uma avó de um aluno (vejam que nem sempre são os pais diretamente) me abordou no fim durante uma competição e disse, na frente do próprio: “Nossa, o Fulaninho é muito mole lutando né, ele já treina faz tantos meses, porque será que ele não luta melhor?”. Na hora, vem aquela vontade de dar uma bronca na avó. Mas isso com certeza traria um atrito desnecessário se a “bronca” fosse mal interpretada. 

Precisamos perceber que do lado de quem é leigo, o pensamento é mais ou menos o seguinte: “O judô é uma luta, meu filho não está conseguindo lutar, então meu filho não se deu bem com o judô.” Neste caso a avó não percebeu que o Fulaninho era um menino muito tímido quando entrou no judô, mas hoje, depois de alguns meses, já está muito mais extrovertido, interage e se diverte muito mais, mas na hora do randori, ainda continua um pouco tímido. É só uma questão de tempo para que ele evolua neste aspecto também.

Por outro lado, se o pai tem uma tendência de pressionar de forma mais agressiva ou frequente, é bom ter uma conversa com ele, a sós, longe da criança e explicar de uma forma moderada como isso atrapalha o próprio desenvolvimento desta no esporte. Diga a este pai que a competição é uma parte pequena do judô e mostre com argumentos como seu filho já teve tais e tais evoluções em outras áreas. Claro que nenhum professor quer ter essa conversa, mas se for necessário, tenha. Não deixe passar e virar algo que traga problemas maiores depois.

A melhor forma de não ter esta conversa é sempre deixar claro para os pais e alunos, durante os treinos ou fora deles, quais são os principais valores do esporte. Sempre tenha conversas aos fins de treino com as crianças para que os pais de fora ouçam e aprendam sobre tudo isso.

Se você é pai de um judoquinha e está lendo este post, gostaria de deixar algumas dicas sobre como se comportar a respeito:

  • Jamais crie climas de rivalidade. Não aconselhe o técnico sobre como dar aulas ou como treinar seu filho;
  • Se o técnico orientou seu filho sobre como lutar em tal competição, não “passe por cima” orientando de outra forma;
  • Jamais faça comentários depreciativos contra técnicos, árbitros ou outros atletas na frente da criança;
  • Permaneça na área de espectadores durante a competição;
  • Tome cuidado com críticas e comportamentos negativos quando a criança perder uma competição ou tiver um mau desempenho;

É preciso entender muito bem este último para pôr em prática. Não quer dizer que você deva sempre premiar a criança quando ela perder, dizer que está tudo bem, porque no fundo ela sabe que não está. 

Aliás é bom permitir que ela sinta e assimile a derrota por um tempo, mas sozinha. Ela não precisa que você também sinta o mesmo mal. O que é essencial neste último tópico é que, depois de um mau desempenho, é importante estar ali presente para qualquer coisa, oferecer o ombro, dar uma palavra de apoio e incentivo e ver o desenrolar da coisa. 

Procurar ser sempre o mais positivo nessa hora, e tomar cuidado para que a linguagem corporal não diga o contrário do que você está querendo dizer. A melhor forma de ter este comportamento é entender de verdade o quanto o judô é completo para a formação do seu filho. Assim você vai ver que o incentivo vale muito mais que a sua cobrança e que mesmo que ele não consiga ser um campeão olímpico, trilhando este caminho, ele será um campeão na vida.


FONTE: http://ojudoca.com.br/2016/02/01/quando-a-exigencia-prejudica-filhos/











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